Reflexões

Violência e ignorância

Quem é o culpado pela violência?

 A violência no Brasil é endêmica, ocorre apenas em determinadas áreas ou regiões específicas, segundo dizem. Não sei se ainda é possível dizer que seja assim. A violência está generalizada, aparece em todos os lugares, em regiões ricas e pobres, de Norte a Sul, Leste a Oeste do país.

 Lemos e ouvimos, todos os dias, discursos de ódio com justificativas rasas, ameaças que levam brasileiros a se exilarem em outros países, homicídios encomendados ou praticados por razões injustificáveis. Com as mídias sociais em evidência, temos a impressão de que fica pior a cada dia. O ódio é o principal combustível para destruir o diferente, para culpar aqueles que não comungam as mesmas ideias por situações que vão muito além dessa polarização de direita e esquerda que surgiu no país.

 A psicologia tenta explicar as atitudes violentas que presenciamos citando o bullying como um dos fatores que desencadeiam a necessidade da vingança através da violência. Nós, detentores de pouco ou quase nenhum conhecimento, apontamos as condições sociais como responsável pela violência. Cada um, em sua área específica de conhecimento, busca uma resposta adequada.

 Mas, afinal, quem é o culpado pela violência? O governo? A sociedade? As mídias sociais? Os games? A televisão e os filmes violentos?

 A resposta é simples: todos nós.

 Nós estamos doentes. Sofremos de uma doença viral chamada ignorância. Esta doença possui em seu quadro patológico um sintoma que se alastra em nosso inconsciente e nos transforma em seres irracionais. O sintoma se chama medo. Medo do que é diferente, do que é novidade, do que não conhecemos. Outro sintoma é pensarmos que não fazemos parte do problema.

 A combinação dos dois sintomas gerados pela ignorância: medo e a falsa crença da inocência cria um desequilíbrio na sociedade. A ignorância gera preconceitos sociais, culturais, de cor, de crença religiosa, política, ideológica, de gênero… Quem sofre da doença da ignorância acredita que a culpa está no sistema, nos comunistas, esquerdistas, nos direitos humanos. A culpa está em não armar a população.

 Os doentes, que se infectaram com esse vírus, confundem segurança com armas, assim como os que se dizem cristãos defendem a tortura e a pena de morte. Para esse segundo grupo de doentes, o segundo mandamento “não matarás” desapareceu. As tábuas da lei devem ter sido reescritas e não fomos informados. Caso a primeira versão das leis estiver valendo, como é possível servir às armas e a Deus ao mesmo tempo?

 A violência, que está diretamente ligada à doença nominada ignorância, coloca o Brasil, no primeiro lugar dos países que mais matam com arma de fogo no mundo. Somos responsáveis por 10% de todos os homicídios no planeta. Basta uma pesquisa rápida no Google para acessar estes dados. Países mais desenvolvidos possuem leis muito severas com relação ao porte de armas e investem muito em educação. Aqui, a educação está sucateada em todos os aspectos, não apenas nos prédios e material de suporte, mas na qualificação dos profissionais da área, sem contar a visão absurda de que educação é gasto e não investimento. E, agora, as escolas que deveriam ser redutos de conhecimento, de pensamento crítico, estão sofrendo as consequências de uma sociedade que vê no ensino, no debate de ideias, um perigo a seus filhos. A escola se transformou em um lugar que precisa de vigilância, porque é doutrinadora, controladora das mentes das crianças e adolescentes indefesos. E esta ideia foi difundida durante os meses que antecederam as eleições e mantida como um dogma sagrado por aqueles que foram eleitos.

 A violência sempre esteve presente no país, isto é fato, em todas as esferas, porém, agora, matar o outro sem qualquer motivo tem aval do governo eleito. Dentro de uma escola, mais ainda, porque é na escola que se abre a mente e se propaga o respeito à diversidade. É na escola que se encontram os grandes opositores à ignorância: os professores e os livros.

 A sociedade que apoiou o gesto da arminha repetido ad infinitum, no entanto, prefere ver a si mesma como inocente e se justifica dizendo que houve má interpretação do fato, mas não diz qual é a intepretação correta. Então, a culpa deve ser da esquerda, dos doutrinadores e não daqueles a quem entregaram o poder. Fechar os olhos é mais fácil do que tomar uma atitude. Porém, pior do que se dizer inocente é defender o indefensável. É acreditar que violência se combate com violência.

Aos arrependidos e silenciosos, a mesma culpa. Porque a mudez perpetua o crime.

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