Reflexões

Utopia

Momentos de instabilidade emocional

 Pedro foi dormir com medo. Durante as últimas semanas, o país viveu momentos de instabilidade emocional. Houve uma psicopatia emergente e incontrolável nas pessoas que desencadeou o ódio generalizado pela opinião do outro. Foram feitas ameaças, agressões, e todo o tipo de violência explodiu. Pedro, fiel à sua crença, rezou ao seu Deus para que tudo terminasse.

 No dia seguinte, quando acordou, recebeu uma mensagem a qual dizia que Luiz Inácio Lula da Silva, estava preso. Tudo havia terminado. Até que enfim, a corrupção no Brasil deixava de existir. Era algo esperado, mas Pedro, descrente que era, precisava ver para crer. Tinha que se certificar que a corrupção não existia mais.

 Ligou a televisão e com dedos aflitos clicou no canal das notícias. Por alguns instantes, ficou imóvel no sofá. Pensou que continuava dormindo e sonhando. O repórter falava sobre a mudança do comportamento do povo brasileiro.

 As pessoas, na fila do banco, aguardam sua vez, sem pedir ao primeiro amigo da frente para pagar seus boletos ou fazer um depósito, porque estão atrasados para o trabalho.

  Inconformado, Pedro trocou de canal. As notícias se repetiam.

 As pessoas estão atendendo ao telefone e não pedem mais aos filhos para mentirem, dizendo que não estão em casa. Há um movimento pró-verdade em todo o lugar. Nos postos de saúde e nos consultórios médicos, todos afirmam que não há mais solicitações de atestados falsos para justificar  faltas no trabalho. Os médicos batem ponto e atendem, todos os dias, com a mesma prontidão que existe em seus consultórios particulares. Relatos dos policiais rodoviários apontam que o comportamento dos motoristas se modificou. Todos têm respeitado os limites de velocidade. Enquanto os motoristas afirmam e comprovam com vídeos a idoneidade dos policiais que não pedem propina para abrandarem as multas.

 Mais uma vez, Pedro trocou de canal. Outro repórter, em frente a uma grande empresa, verbalizava novas mudanças.

 Os responsáveis pelas compras da empresa afirmam que não há mais favorecimentos para compra de mercadorias, o que é comprovado pelo vendedor com quem entramos em contato. Também temos confirmações de que as licitações nas prefeituras estão seguindo o mesmo modelo. Não há favorecimentos para amigos. Tudo segue dentro da lei.

 Pedro deixa escapar um longo suspiro. Quanto tempo ele havia dormido? Tinha certeza que só se passaram algumas horas. Pegou o celular e ligou para o amigo José.

 — O que diabos está acontecendo nesse país? — perguntou sem dizer bom dia.

 — O de sempre! A corrupção acabou! Estamos em um país diferente, cheio de altruístas que vão até a casa dos mais necessitados entregar remédios, alimentos e oferecer trabalho remunerado. Tem gente pagando os estudos daqueles que querem entrar em um curso superior. Sem contar nas exigências feitas ao governo, que são cumpridas, para termos boas escolas, bem equipadas. Os professores estão sendo bem remunerados. As estradas não têm mais os buracos de antes. Nossos impostos são utilizados para o que devem ser.

 — Tem alguma coisa errada aí, José! As eleições ainda nem aconteceram.

 — Tá de brincadeira comigo, né? As eleições foram há dois anos. Nosso presidente não é corrupto. Não teve compra de votos e todos são amigos. A rivalidade acabou!

 Pedro desligou o telefone. O corpo permanecia inerte no sofá. A televisão continuava a transmissão das últimas notícias.

 Aqueles que defenderam o ex-presidente, agora preso, baixaram suas cabeças, resignados. Aceitaram a ordem vigente e voltaram às suas rotinas diárias de trabalho. Não há mais com o que se preocupar.

 

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