Reflexões

Um texto sobre filosofia

“Justiça - O que é fazer a coisa certa"

 Fazendo a leitura do livro “Justiça - O que é fazer a coisa certa", de Michael J. Sandel, os conceitos de certo e errado, de  justiça e liberdade, felicidade e bem-estar confirmam que o ano aumentou um dígito, mas o mundo continua igual. Pessoas roubam, matam, enganam, causam dor, pânico e revolta em tempo integral e ininterrupto. E nós continuamos querendo que a justiça aconteça, seja de que forma for. Contudo, que leis devem governar nossa vida coletiva?

 Para continuar a leitura, peço que vocês esqueçam qualquer religião que professem, pelo menos para conseguirem obter as próprias respostas para as perguntas que seguem, sem interferências externas.

 Quantos de nós nos perguntamos o que é fazer justiça? O que é fazer a cosa certa? Como medimos ou quantificamos nossa visão de justiça? O que é imoral e por quê? São perguntas que nos remetem a outras tantas, porque vivemos em uma sociedade organizada por leis feitas por pessoas iguais a nós, que seguem determinados parâmetros do que é certo e errado. Parâmetros esses estabelecidos séculos antes de nós.

 Muitos filósofos falaram e falam sobre justiça. Entrelaçam justiça à moralidade, às nossas virtudes. Também ligam justiça ao nosso senso de bem-estar e liberdade. 

 Quantas vezes questionamos as leis existentes? Será que é o Estado quem deve dizer o que é certo e errado diante de tudo o que vemos diariamente? Nós mesmos? E como podemos garantir que nossa visão de justiça está correta? Como, a partir de nosso julgamento, chegar ao princípio de justiça que poderia ser aplicado em todas as situações, de forma universal? 

 Estamos repletos de divergências morais. Alguns defendem que é correto sacrificar a vida de um indivíduo para salvar milhares de outros. Alguns defendem o aborto, outros o condenam. Alguns acreditam que os ricos devem pagar mais impostos para ajudar os pobres, outros acreditam que isso só aumenta a vagabundagem. Alguns defendem o sistema de cotas na admissão ao ensino superior, outros consideram esse sistema uma forma de discriminação invertida. Alguns rejeitam a tortura, outros a defendem como um recurso extremo a fim de se evitar um mal maior.

 Como, frente a todas essas divergências, raciocinar claramente sobre justiça e igualdade? Talvez com o princípio central de liberdade, defendido por John Stuart Mill (1806-1873): “as pessoas devem ser livres para fazer o que quiserem, contanto que não façam mal aos outros.” Pensando assim, somos donos de nós mesmos, de nosso corpo e nossas vontades (desde que não prejudiquemos os outros). Seria, então, correto vender meus rins a fim de ganhar dinheiro, independente de onde eu queira gastá-lo? Em 2001, o alemão Bernd-Jurgen Brandes respondeu a um anúncio na internet. Armin Meiwes buscava por alguém que quisesse ser morto e ser comido - literalmente - sem recompensa alguma. Meiwes foi condenado a prisão perpétua por canibalismo. Se Brandes era livre para fazer o que quisesse de seu corpo e de suas vontades, está correto a justiça condenar Meiwes? Seria correto, também, um doente terminal desejar por fim a seu sofrimento e solicitar a seu médico que o ajudasse a morrer? Como saber se isso é, de fato, justo? 

 Podemos afirmar que tudo depende das condições nas quais as pessoas fazem escolhas. Se estiverem passando por excessiva pressão, suas escolhas não podem ser consideradas livres, porque não conseguiram informações suficientes sobre todas as alternativas. Se nossa escolha foi tomada sob pressão, nossa escolha estaria errada? E quanto a nossa felicidade? Se estivermos felizes, na hora da escolha, mesmo com interferência externa, estaríamos ainda errados? Por que julgamos alguns de uma forma mais rígida e outros não?

 Immanuel Kant (1724-1804) nos diz que: “somos seres racionais, merecedores de dignidade e respeito.” Ou seja, nossa liberdade vai muito além das nossas escolhas. Nossos desejos e preferências podem destruir nossa dignidade. Não é errado tentar satisfazer nossas preferências, para alcançar a felicidade, mas devemos fazer isso por nós mesmos, não para agradar a terceiros.

 “Agir livremente não é escolher as melhores formas para atingir determinado fim; é escolher o fim em si.” Devemos nos questionar sobre “o que aconteceria se todos agissem assim?” Elevar nossa pergunta à universalidade, porque quando universalizamos o que pensamos, estamos fazendo a coisa certa pelo motivo certo.

 Ficam alguns outros questionamentos para iniciar 2018: se não conseguimos encontrar nossas respostas a tantas questões divergentes sobre liberdade, felicidade, moral, bem-estar e ética, como podemos desejar que a justiça seja feita e que o mundo se transforme em um lugar melhor para viver?

 

Outras Imagens

Comentários