Reflexões

Solidariedade

As tragédias individuais passam longe de nossos olhos

 Após a eliminação do Brasil da Copa do Mundo de Futebol, as notícias relevantes voltaram a fazer parte das redes sociais e dos noticiários. Algumas, mais que outras. Acompanhamos o resgate dos doze meninos e do guia responsável por eles de uma caverna, na Tailândia. Vimos muitas pessoas solidárias, que deixaram de trabalhar para fazer parte do resgate, construindo barreiras para que a água não avançasse em direção à entrada da caverna. Nos entristecemos com a morte do mergulhador e rezamos, para os que creem em rezas, para que não houvessem mais perdas.

 A solidariedade, no entanto, parece acontecer somente nas tragédias coletivas. No nosso dia-a-dia, ela desaparece; se esconde atrás dos nossos próprios problemas, que consideramos maiores do que os dos outros. As tragédias individuais passam longe de nossos olhos, ou fechamos os olhos para não vê-las. Não criamos empatia com crianças que passam fome, com idosos abandonados, chutamos para longe cães e gatos que circulam nas ruas, jogamos fora filhotes que não queremos, mesmo que frequentemos cultos religiosos - sejam quais forem - e que o pregador, pastor, orador, padre, diga que devemos cuidar do nosso semelhante; mesmo que a oração que mais conhecemos e repetimos nos diga para amar ao próximo como a nós mesmos.

 A indiferença nos torna individualistas. Nos aproximamos das pessoas e mantemos relações com elas por conveniência, como se amizades pudessem ser compradas nas prateleiras dos mercados. Tratamos os outros como se fossem mercadorias e, pior, descartáveis. Se não nos derem o que queremos, trocamos.

 A indiferença nos torna egoístas. Só amamos se formos amados, mas não sabemos amar, por isso não conseguimos ser solidários nem ter empatia com a dor do outro. É certo que cada um de nós tem problemas. É impossível estarmos bem o tempo todo, sermos apenas alegria e felicidade. Cada um sabe, como dizem, onde aperta o sapato. No entanto, não podemos anular nosso amor.

 As pessoas têm a tendência de se afastar das tristezas da vida, porque não conseguem ter empatia, não conseguem ser solidários com o que machuca, com o que causa dor. Querem que o outro esteja sempre sorrindo, tenha sempre uma boa história para contar, uma piada que os faça rir. Dizem que possuem problemas demais e não querem “comprar” a dor do outro. E, se por um descuido do “destino”, se pelo acaso da vida, ou por desejo divino, tivermos que passar por algum tipo de tragédia; um deslizamento de terra, um incêndio? Como gostaríamos de ser tratados? Como desejaríamos ser vistos? 

 Precisamos cuidar do outro que está ao nosso lado, bem pertinho, do mesmo jeito que gostaríamos de sermos cuidados. Devemos estender nossa solidariedade para quem está longe, sim, é claro! Porém, devemos igualmente nos lembrar de compartilhar solidariedade com quem está logo ali, do outro lado da rua, ou na casa vizinha.

 

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