Reflexões

Sobre a ameaça fascista que se aproxima...

O começo do ano está sendo bastante agitado no nosso país

 O começo do ano está sendo bastante agitado no nosso país. Afinal, a troca de governo trouxe um dos líderes mais ideológicos que já tivemos. Querem saber sobre ideologia? Leiam a coluna da amiga Ceres Marcon aqui mesmo no Dupla Notícia. E as manchetes dizem algo sobre o novo: “menino veste azul e menina veste rosa”, “tem que filmar professor dentro da sala de aula”, “índio não sabe o que faz”, “o Brasil vai deixar de ser um país socialista”, “agora o Enem tem dono”. Tudo isso vindo de um governo que diz que vai governar sem ideologia, coisa impossível. Diante de tudo isto, começou a se falar na ideologia fascista. Mas o que é o fascismo? Onde surgiu?

 Vamos começar então pela origem da palavra. O termo fascismo faz referência à palavra latina fasce, usada para designar um feixe de varas amarrado ao redor de um machado. O símbolo do fasce remonta à força do Estado sobre a população. Na Roma Antiga, os soldados costumavam usar um feixe de varas amarradas a um machado, a fim de evitar que o machado quebrasse. Uma única vara pode ser facilmente envergada ou quebrada, enquanto um feixe com muitas delas é bem mais resistente. Mas onde surgiu o fascismo? Na Itália.

 A Itália, mesmo vitoriosa na Primeira Guerra Mundial, achou-se prejudicada na partilha das colônias africanas definidas pelo Tratado de Versalhes. Ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), a Europa estava arrasada. Esse contexto permitiu que ideologias totalitárias ganhassem força e acabassem por se consolidar em diversos países europeus, com destaque para o Fascismo italiano e o Nazismo alemão.

 As grandes personagens desses modelos de governo mantinham um passado em comum, foram soldados na Primeira Guerra Mundial. Segundo o historiador inglês Eric Hobsbawn, a participação naquele conflito, mais do que remodelar o mapa europeu, deixou como legado os traumas de guerra. Diversos jovens que lutaram na Grande Guerra acabariam por engrossar as fileiras dos partidos totalitários. Mas voltemos a Itália.

 A elite italiana temia uma possível revolução proletária, semelhante à acontecida na Rússia. Os inúmeros desempregados, a crise econômica e as agitações sociais foram suficientes para a ascensão tanto de partidos socialistas como de nacionalistas. Nesse contexto, Benito Mussolini funda o Partido Nacional Fascista, com ideologia centrada no nacionalismo (lembram de alguém enxugando as lágrimas na bandeira?) exacerbado e promessas de mudanças políticas e econômicas. Em 1922 (mesmo ano da Semana de Arte Moderna, no Brasil), num episódio que ficou conhecido como “Marcha sobre Roma”, Mussolini, seguido pelos “camisas negras”, como eram conhecidos os integrantes da milícia armada (olha a palavra mílicia) que deu origem ao Partido Fascista, forçou o governo italiano a declará-lo como Primeiro – Ministro da Itália. Mussolini agradava a operários e camponeses, mas efetivamente agia em favor de latifundiários e industriais. Mantinha forte repressão policial, eliminando a oposição, censurando a imprensa, fazendo discursos e promovendo paradas militares. Em 1925, Mussolini tornou-se o único líder do governo, o Duce, instaurando uma ditadura fascista. Em 1926, uma nova legislação trabalhista foi proposta, a Carta del Lavoro, na qual estabeleceu-se o corporativismo submetido aos interesses do Estado. E as greves foram proibidas. Partido só poderia existir um: o Partido Fascista. A educação é padronizada pelo governo. Existe o culto às armas, culto ao líder. Assim é o fascismo. O final da história todos sabem: Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), milhões de mortes, genocídio, bomba atômica.

  O fascismo pode voltar. Penso que sim. Mas é claro que ele assume novas formas e roupagens. Contudo, utiliza-se de velhos e conhecidos contextos. Quais roupagens: o discurso do ódio, do inimigo em comum, do autoritarismo, da obediência cega. Vamos aos fatos: hoje mesmo (23/01/2019) uma entrevista coletiva presidencial brasileira é cancelada em Davos (Suíça) e a culpada é a imprensa por não ter bom comportamento. O que seria uma imprensa comportada? Não fazer perguntas combinadas? Some-se a isto o fato de conceder entrevista somente para uma rede de televisão. E, pior, ameaçar as outras redes de comunicação. Num regime democrático, seja qual for ele, a liberdade de informação é um dos principais pilares da sociedade. Gostando ou não do governo e de suas práticas todo cidadão deve lutar e zelar pela manutenção da democracia, pela liberdade individual e pela transparência. E quando ela começa a deixar de existir é quase uma obrigação “um puxão de orelhas”. Derrotas de projetos em processos democráticos são comuns e fazem parte do jogo. O que não se pode permitir é que a democracia seja assassinada, por mais decepções que ela eventualmente nos traga. Encerro com uma frase de Winston Churchill, homem que liderou a Inglaterra na luta quase que solitária contra o fascismo: “Se você está atravessando o inferno...não pare”.


 

 

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