Reflexões

Mais Livros e Menos Armas - Hipócritas e Cia

Minha resposta ao canal Hipócritas

 Esse texto é a minha resposta ao canal Hipócritas, que faz jus ao nome, e também é a minha resposta àqueles que compartilharam o vídeo em questão e apoiam as ideias toscas, simplistas e, arrisco-me a dizer, perigosas por ele divulgadas.

 Sim, Hipócritas e seguidores! O slogan Mais Livros e Menos Armas é de conhecimento público. Sou bem informada sobre o mundo e sobre os índices de criminalidade com armas de fogo. Até 2016, tinham sido registradas 43.200 mortes; hoje, segundo o Ipea, são 62.517, um número 30 vezes maior do que na Europa. Os suicídios contabilizaram, no ano de 2016, um total de 11.178 mortes.

 Mais Livros e Menos Armas não é apenas o discurso das misses. Quem quer mais “mizis” é um tal de Eduardo Bolsonaro, aquele que era contra o foro privilegiado, mas usou dessa benesse para esconder a corrupção da qual faz parte. 

 Artistas e intelectuais não precisam e nem querem ser ovacionados, tirando os pseudointelectuais como Olavo de Carvalho, a “estrela” da direita, e a família eleita para governar o país, visto que adoram um barraco nas redes sociais. Os artistas e intelectuais querem leis que punam os criminosos com rigor, porque armas os criminosos já possuem. Também querem, assim como eu, educação e escolas. 

 Docentes não são indecentes, como você salientou no vídeo. Aliás, indecente é você ao propagar a violência e o ódio contra aqueles que não compactuam com o pensamento raso que você, junto com os seus, espalham nas redes sociais. Os docentes, a grande maioria, não vivem em bairros nobres, como você quer fazer acreditar, mas, talvez, você sim. Docentes não têm patrocinadores, nem empresas que bancam vídeos de minutinhos para vomitar mentiras e viver da ignorância daqueles que são manipulados por frases de efeito.

 Por que queremos Mais Livros e Menos armas? Porque países como o Japão, Alemanha e Finlândia provam que armas não solucionam o problema social, porém as escolas e os livros sim. Na Finlândia, 99% dos jovens concluem o Ensino Médio, o maior índice global na educação. No Brasil, somente 59% completam essa etapa de formação.

 Mais Livros e Menos Armas, porque não temos dois tipos de História. Ela é apenas uma. Ela está nos livros feitos por estudiosos e pesquisadores que possuem um alto nível de cultura, diferente de você e de seus seguidores. A História não cai em um buraco na borda do mundo. A História não pode ser apagada. Se há outro tipo de História, talvez seja aquela que você quer escrever, mas, por falta de competência, permanece ofendendo aqueles que conseguem ter uma visão holística dos fatos, por isso se contenta em verbalizar frasezinhas de efeito com rima pobre, para tentar alcançar um objetivo duvidoso.

 A frase Mais Livros e Menos Armas é replicada por garotos que não são apenas “ixpertinhos”; são seres capazes, inteligentes, que sabem como a manipulação midiática funciona. Se usam cabelos coloridos, é porque entendem que o diferente faz a diferença. Mas você não deve saber o que é isso, nem seus seguidores que posam de bons cidadãos, mas não assumem seus compromissos de paternidade, furam a fila, compram diplomas e fingem que trabalham. Jovens que usam o corpo como forma de expressão são muito diferente dessa turma que apoia seu canal, a qual, certamente, não lê um livro por ano, porque “não tem tempo”, mas o tempo não conta para vocês quando assistem pornografia. Quem apoia Mais Livros e Menos Armas tem inteligência, não é hipócrita.

 Mais Livros e Menos Armas não é uma expressão leviana. As armas estão nas mãos dos criminosos, dos estupradores, somando a estatística dos 59%, porque o governo prefere deixar os prédios das escolas caírem e construir presídios. O MEC, em 2017, declarou que apenas 41,6% das escolas de Ensino Fundamental contam com rede de esgoto e 52,3% possuem fossa. Somente 8,6% das escolas públicas de Ensino Fundamental têm quadra esportiva, nas de Ensino Médio, 43,9%. Se olhar para o pagamento dos professores, aqui no Rio Grande do Sul, um professor que trabalha 40h ganha R$ 2.433,35. Então, não venha me dizer que os docentes moram em bairros nobres, Hipócrita!

 Mais Livros e Menos Armas não é apenas para o cearense. Aliás, acredito que você tenha pego o Ceará como exemplo, porque algum candidato à presidência deve ter te desagradado. E por falar em cearense, vamos englobar o nordeste todo; esse povo sucumbe à seca e à fome. É a desigualdade social que cria a violência. Você sabia que existem 80.000 açudes de grande, médio e pequeno porte no Nordeste? Esses reservatórios, porém, não estão nas mãos dos trabalhadores, sendo que estes dependem de carros-pipa e outras formas de acesso à água. Tais açudes atendem à agropecuária e à cultura irrigada, que consome 69% da água; 11% vai para os animais e 20% para o consumo humano. A tecnologia de acúmulo de água serve apenas ao setor agropecuário. Quanto ao perímetro irrigado, 70% está nas mãos dos empresários, por meio de concessões e outros privilégios. Mas isso não interessa à gente como você ou aos seus seguidores. Porque pobre deve permanecer pobre.

 Mais Livros e Menos Armas é tudo o que você e seus seguidores não querem,  vocês que são os defensores da família, dos bons costumes e dos homens de bem, mas que fazem piadinhas homofóbicas, machistas, misóginas e xenofóbicas. Porque livros destroem mundos fictícios. Esse mesmo mundo que você e os seus querem criar.

 O portador de câncer, o aidético, o cardíaco, precisam de livros, sim, mais do que de armas. Porque se conhecessem seus direitos, não precisariam mendigar por atendimento e remédios nos postos de saúde, nem por cestas básicas nas prefeituras. Almejar algo melhor não é uma utopia; está dentro do percentual de 99% de aprovação na Finlândia. Para você, que é tão bem informado, a OMS aponta 17,6 médicos para cada 10.000 brasileiros. Na Europa, a taxa é de 33,3 médicos a mais. No Brasil, 75% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS:  150 milhões de pessoas. Os sujeitos que você cita no vídeo não teriam necessidades de armas se houvesse uma política social, cultural e educacional de ponta. O governo, no entanto, limitou os gastos em saúde com a PEC 241, por vinte anos. Com livros, as pessoas saberiam eleger bons representantes para o governo e você não seria ouvido. Mais Livros e Menos Armas significa mais investimentos na educação, nos professores, nas bibliotecas, na saúde, na segurança. Lembrando que saúde é um direito de todos.

 Mais Livros, no entanto, não interessa nem a você, seus seguidores, nem ao governo eleito. Mais Livros significa mais visão de mundo, mais criticidade, e isso impediria você e seus iguais a dominarem os 38.000.000, isso mesmo, trinta e oito milhões de analfabetos funcionais que existem no país. Para vocês, é mais fácil defender Mais Armas, porque, assim, quem sabe, as minorias desapareçam.

 A doença já se espalhou, Hipócritas e seguidores, a partir do momento em que o respeito se perdeu.





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