Reflexões

Do caos a lama. Da lama ao caos...

As recentes tragédias

 As recentes tragédias de Brumadinho, CT do Flamengo e deslizamentos de terra no Rio de Janeiro são um retrato da situação caótica na qual o Brasil se encontra. E o mais impressionante é o conformismo que se apossou da população brasileira. O brasileiro só faz é chorar diante das câmeras de televisão e nas redes sociais. E convenhamos que chorar não é manifestação de inconformismo. Chorar é chorar.

 A tragédia de Brumadinho era uma crônica anunciada, todos sabiam. Afinal, a lama da Samarco, outra tragédia ocorrida no mesmo Estado de Minas Gerais, não começou nem a ser limpa e mais uma barragem se rompeu. Samarco que é uma empresa na qual a Vale é uma das principais acionistas. Como? Sim. A Vale, empresa da tragédia em Brumadinho, é acionista da Samarco, empresa envolvida no primeiro deslizamento. O que nos leva a outra questão: foi tragédia ou assassinato? Fico com a segunda opção.

 As lágrimas ainda corriam pelos olhos dos brasileiros e mais uma “tragédia” acontece. Dez jovens morrem queimados no CT do Flamengo no Estado do Rio de Janeiro. CT que este colunista cansou de ouvir falar bem no programa Sala de Redação da rádio Gaúcha. Coisa de outro mundo disse um dos participantes. A discussão no dia era sobre a falta de um CT no Internacional. Coisa de outro mundo mesmo! Os jovens dormiam em contêineres. Era uma verdadeira ratoeira. E de novo nos damos conta de que não foi uma tragédia, foi assassinato.

 Outro elemento em comum nos dois tristes acontecimentos foi o fato de os presidentes da Vale e do Flamengo aparecerem chorando diante das câmeras de TV. “Lágrimas de crocodilo” com certeza. Usando uma expressão futebolística, estavam “jogando para a torcida”. Eles sabem que são os responsáveis. Como é Brasil, foram presos oito engenheiros da Vale. No caso dos jovens jogadores, o presidente do Flamengo culpa a prefeitura do Rio de Janeiro.

 Agora se fala em leis mais rígidas. Mais leis? Típico do Brasil! Lembram da lei Kiss? Uma lei muito bem elaborada pelo Deputado Adão Villaverde e sancionada pelo então ministro Tarso Genro. Tão boa que as “autoridades” se queixaram. Acharam rigorosa de mais. E acabaram por dar uma “amenizada” na lei. Por que amenizaram? Custos. Setores influentes da construção civil reclamaram. Sempre o dinheiro. 

 A grande verdade é que uma grande parte dos brasileiros clamam por leis rigorosas, presídios, polícia violenta. Só que estas mesmas pessoas querem isto tudo para os outros. “Eu posso beber e dirigir”. “Imagina se vou soprar o bafômetro”. “Polícia aqui só com mandado judicial”. 

 Quando acontecem essas tragédias, que para este articulista são assassinatos, sempre recordo do Marquês de Pombal, ministro do rei de Portugal. A cidade de Lisboa havia sido arrasada por um terremoto em 1755. E o rei D. José estava transtornado, não sabia o que fazer. Estava em pânico e abismado com tamanha destruição. Então chamou o seu ministro e perguntou: “o que eu faço?”. Pombal, Iluminista quer era, respondeu seco: “vamos sepultar os mortos e cuidar dos vivos”. O racional Marquês chegou a ser acusado de ser insensível. Pombal ignorou as críticas e trabalhou. Ele encarregou um grupo de engenheiros portugueses e estrangeiros de traçar um novo perfil da cidade de Lisboa. Em vez de reconstruir a cidade utilizando velhas ruas, foram traçadas novas ruas e praças que permitiriam, em caso de novo terremoto, pontos de fuga e concentração da população. Não menos inovadores foram os novos edifícios. Nas fundações e nas paredes podem-se encontrar estruturas de madeira preparadas para resistir a novos abalos. Pombal mostrou o que fazer diante de um problema. E isso lá no século XVIII. E no Brasil do século XXI o que fazemos? Choramos, choramos e choramos. Para fazer o que quando acontecer de novo? Chorar, chorar e chorar...

 

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