Reflexões

Ainda existe o fio de bigode?

Por que acreditamos que levar vantagem é mais importante do que sermos honestos?

 Muitas pessoas, nas redes sociais, oferecem serviços de todos os tipos. Alguns são feitos com assinatura de contratos, nos quais metade do pagamento é efetuado antecipadamente e o restante, no término do acordado entre as partes. Contratos normais, como quaisquer outros. Existem, também, os que são feitos por troca de serviços, que não envolvem pagamento em dinheiro. Em outros casos, quando as pessoas se conhecem, mesmo que apenas virtualmente em grupos específicos ou não, adquire-se confiança mútua e contratos se tornam descartáveis, porque há o interesse, de um lado, de mostrar eficiência no trabalho oferecido e, por outro, a crença de que como faremos nosso melhor, receberemos pelo que executamos. Acreditamos na reciprocidade entre as partes. No entanto, vê-se inúmeras reclamações de quem fez um trabalho e não foi devidamente pago, porque o contratante desistiu do projeto, mesmo quando tudo foi executado conforme o combinado.

  A geração mais jovem não deve conhecer um dito popular que fala no valor do “fio do bigode”. Ele se referia a pessoas que mantinham acordos, mesmo sem as formalidades de assinaturas de contratos. Havia o temor de que fossem vistas como caloteiras e irresponsáveis, e havia o respeito pelo nome que carregavam. Um nome sujo representava a queda dos valores daquela família, ou seja, o nome cairia na lama, seria uma vergonha para todos.

 Hoje, mesmo com o SPC - serviço de proteção ao crédito -, vemos que a  inadimplência continua. A falta de preocupação em deixar um carnê sem pagamento parece não afetar a consciência dos envolvidos ou pelo menos de grande parte da população. É lógico que devemos levar em conta, neste caso, muitos trabalhadores que não recebem em dia seus salários e as dívidas se acumulam, basta verificar a situação dos servidores do Estado. À parte estes casos, ser cumpridor das obrigações que assumimos parece ter perdido o valor.

 O que mudou, nos últimos séculos que fez com que as pessoas não se sintam inclinadas a cumprir um acordo, seja ele verbal ou por escrito? Onde foram parar nossos valores éticos e morais? Por que acreditamos que levar vantagem é mais importante do que sermos honestos?

 Há, com certeza, uma crise ética em nossa sociedade. O bem-estar coletivo foi substituído pelo individualismo. A corrupção, em todos os setores da sociedade, se mostra sem qualquer pudor e sem medo de punição. A população se vê questionando o que é mais tolerável: “roubar uma agulha ou roubar milhões de reais?”, mesmo sabendo que nenhuma das duas atitudes deveria ser aceita.

 Diante deste cenário, podemos afirmar, então, que é normal e ético, após solicitarmos um serviço, qualquer que seja, pelas redes sociais ou fora delas, não nos sentirmos devedores daquele que o executou para nós, porque, afinal, desistimos de utilizá-lo ou ele não nos serve mais. Por que vou pagar por algo que não irei mais utilizar? Se concordamos com este pensamento, somos tão corruptos quanto a corrupção que tanto queremos combater e eliminar de nossa sociedade. Somos, sem dúvida, individualistas. Não nos preocupamos com o tempo e a energia gastas pelo outro a fim de executar o que lhe foi solicitado. Se é bom para mim, ótimo. Se o outro tem prejuízo com a minha atitude, não é da minha conta. Há, inclusive, quem acredite na frase “quem tem que se preocupar é quem tem que receber”. Logo, não somos nem honestos, nem éticos.

 

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