Reflexões

A necessidade do silêncio

Calar diante da impossibilidade do diálogo?

 Ouvimos, por vezes incontáveis, frases que nos orientam a calar diante da impossibilidade do diálogo. Muitos dizem que quem cala consente. Devemos acreditar nestas afirmações? Temos mesmo que fazer uso do silêncio? Somos coniventes ao deixarmos de nos pronunciar?

 Quando pensamos no poder das palavras, os conselhos para mantermos o silêncio pode parecer um grande despropósito. As palavras constroem relações, aproximam, transformam, qualificam quem as utiliza, são multiplicadoras de ideias, distribuem alegrias. Palavras modificaram e modificam o curso da história. No passado, foram utilizadas por vários líderes políticos, religiosos, historiadores, escritores, filósofos. Alguns saltos na história nos mostram o quão importante elas são. Moisés as recebeu e as divulgou para que o povo que o seguia se mantivesse unido em busca da terra prometida.

 Depois dele, Jesus veio e nos disse que deveríamos amar-nos uns aos outros e que ele não veio mudar a lei, mas cumpri-la. Shakespeare questionou a humanidade com sua famosa frase: “Ser ou não ser, heis a questão”. Dom Pedro I nos ofereceu a alternativa da separação de Portugal, quando gritou às margens do Ipiranga: “Independência ou morte!”. No entanto, também houve um discurso que mudou a humanidade e nos mostrou a terrível face da humanidade: “Diante de Deus e do mundo, o mais forte tem o direito de afirmar a sua vontade.” (Adolf Hitler).

 Seguindo a lista de citações, em Lucas 6,45 , o Cristo nos disse: “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio”. Só isso bastaria para entendermos o que se passa com a humanidade nos dias atuais. Há uma lista interminável de citações que comprovam o poder das palavras. Também são elas, infelizmente, que iniciam desavenças, guerras, destroem a confiança, amizades, casamentos; caluniam, difamam e destroem reputações. Por isso, deveriam ser utilizadas com cuidado.

 Quando desejamos encerrar uma discussão que pode ser geradora de prejuízos, calamos. Porém, quem cala, nestes momentos, é aquele que entende a inviabilidade de prosseguir, porque tem a consciência de que o outro não quer ouvir argumentos contrários, está despreparado para o diálogo e fechou-se para a troca de ideias; deseja ter a última palavra e quer que o seu ponto de vista se mantenha como a verdade final, porque falta-lhe a humildade necessária para, também, silenciar.

 O silêncio, nestas horas, é nosso aliado, porque nos proporciona o raciocínio. É quando buscamos o equilíbrio interior, analisamos a situação e nos colocamos no lugar do outro, para tentarmos entender seu ponto de vista, se os argumentos utilizados têm fundamento ou são apenas movidos pela paixão sem medida. Ele nos auxilia a encontrarmos o rumo a ser seguido, a tomar a decisão mais apropriada. Quando silenciamos, nos conectamos com nosso ser interior e com os seres de luz que nos acompanham. O próprio Cristo utilizou o silêncio para enfrentar o demônio que o tentava e foi o silêncio que o guiou a encontrar as palavras certas para responder às tentações. Meditou e orou em busca da iluminação necessária para enfrentar o calvário que o aguardava.

 Em contra partida, o silêncio transforma-se em um inimigo, quando o utilizamos para deixar que injustiças aconteçam e, assim, nos tornamos coniventes, cúmplices de desagravos, conspirações e mortes. Nestes casos, somos os carrascos, o Pilatos que lavou as mãos, aqueles que puxam o gatilho e matam inocentes, aqueles que destroem sonhos em troca de milhões, aqueles que negam um prato de comida aos famintos, somos o homem rico que não prestou auxílio a Lázaro. O mesmo Cristo, que silenciou no deserto, colocou-se ao lado da pecadora Madalena, utilizando-se das palavras certas para evitar que ela fosse apedrejada.

 Para nós cristãos, que buscamos exemplos de quando devemos silenciar e quando devemos falar, basta lembrarmos do Cristo. É lamentável que esqueçamos tão facilmente o que aprendemos nos anos de catequese ou nos estudos evangélicos de nossas respectivas igrejas e templos. É lamentável que, apesar de frequentarmos a missa, o culto, as palestras espíritas deixemos de lado, no nosso dia-a-dia, a história daquele que deveria ser o modelo a ser seguido.

 Então, quando a dúvida chegar, vamos nos servir do Cristo. Lembremos do que ele fez e de como ele procederia e encontraremos a resposta que procuramos. Saberemos, desta forma, se devemos falar ou silenciar.

 

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