Reflexões

A inveja quotidiana

Mais um dos pecados capitais conhecidos

 A inveja se constitui de inúmeras incapacidades individuais que alimentamos durante o nosso quotidiano, seja por conta de nossa falta de discernimento em ver nossas próprias aptidões e limitações, seja pela necessidade de sermos enaltecidos por quem nos cerca.

 Somos a única espécie do planeta que cultiva este sentimento destrutivo. Observamos outros animais e o que vemos é instinto de sobrevivência e, em alguns casos, solidariedade. Os animais não copiam atitudes uns dos outros, possuem instintos de preservação, inatos em cada espécie, e que atuam como freios em momentos de escassez de comida e água. Seus instintos os limitam e eles protegem uns aos outros. Eles só aprendem o que é a inveja se os humanos os treinarem para que assim procedam. Estudos feitos com macacos provaram que, quando um é mais recompensado que o outro, aqueles que foram deixados de lado tendem a ter atitudes ressentidas para com aquele que recebe mais pelo mesmo trabalho.

 Essa humanidade a qual pertencemos e que acredita ser a escolhida de Deus está engatinhando no mundo dos sentimentos. Mal tiramos as fraldas que usamos durante a era da sobrevivência a qualquer custo e temos certeza que somos deuses e estamos em um patamar acima das outras espécies. E, o que é pior, acreditamos que somos melhores que nossos próprios irmãos humanos. Desrespeitamos tudo e todos com nossa pseudo-sabedoria. Matamos e prejudicamos aqueles a quem deveríamos amar e proteger.

 Vemos pessoas, com muita frequência, desmerecendo, através de atitudes e palavras, a outras que tentam progredir. Observamos a falta de empatia para com os desempregados, os doentes, os analfabetos ou semi-alfabetizados jogando a culpa do fracasso em suas vidas, no destino, nas escolhas, nos méritos. Criticamos e falamos mal daqueles que compram um carro novo, constroem uma casa, abrem uma empresa determinando que só conseguiram o sucesso porque roubaram ou praticaram atos ilícitos. Há exemplos que podem parecer menos significativos como cópias de textos e comentários pejorativos a respeito do fazer do outro. Calúnias e difamações são frequentes e o objetivo é sempre o mesmo: tirar a concorrência do jogo. Se eu não tenho, o outro não pode ter. Se eu não consegui, o outro não tem o direito de conseguir.

 O invejoso é uma pessoa infeliz com a própria existência e se magoa quando alguém próximo se destaca por algum trabalho que chama a atenção. São pessoas sem auto-estima, porque só conseguem ver o outro como um ofuscador do brilho que não possuem. Vivem em um poço profundo e lodoso e arrastam ingênuos com eles, usando falas manipuladoras e tendenciosas. São insatisfeitos com a própria aparência, com os bens que possuem e com a condição social da qual desfrutam. Os invejosos só conseguem ver defeitos naqueles que os cercam e se sentem realizados quando o adversário cai por terra. Há um ditado japonês que diz: “As desgraças dos outros têm gosto de mel”. Eles acreditam que são injustiçados e incompreendidos. Quando um invejoso consegue um pouco de destaque, acredita que o lugar em que se encontra é merecido, alardeia a conquista, mesmo que para alcançar o posto almejado tenha destruído seu adversário com um rolo compressor.

 A inveja é mais um dos pecados capitais conhecidos, junto com a gula, a luxúria, a avareza, a ira, a soberba, a vaidade e a preguiça. Não há um ser humano que não tenha vivido, em algum momento da existência, este sentimento destrutivo. Segundo alguns estudos da neurociência, diferente dos outros pecados capitais, a inveja produz dores no corpo daquele que a sente. Ela gera no organismo a mesma sensação da fome e da sede, fazendo com que o indivíduo busque pela saciedade que, no caso, é a queda do invejado.

 Há um aspecto positivo na inveja, quando não é alimentada ao ponto de se tornar destrutiva: a possibilidade de crescer vendo os outros como exemplo. Porém, nossa humanidade, nossa dificuldade em sermos empáticos nos leva ao extremo.

 Para eliminarmos a inveja é preciso uma mudança de comportamento. É preciso ver o mundo com um olhar amoroso. É preciso ver o outro como uma extensão de nós mesmos. É preciso aprender a amar quem somos sem sermos egoístas.

 Será que estamos dispostos a transformar a inveja em generosidade?

 

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