Reflexões

A época é outra, mas estamos voltando aos tempos da guilhotina.

A Revolução Francesa tem muito a nos ensinar sobre a intolerância

 Que os tempos andam “bicudos” para quem emite opinião, disso não tenho a menor dúvida. Hoje, um simples comentário sobre um jogo de futebol, o Grenal, por exemplo, pode gerar uma cadeia de ofensas sem tamanho. Esses dias, o Davi Coimbra, comentarista da Zero Hora, revelou na rádio Gaúcha os comentários feitos na timeline da sua conta no Facebook. Ele havia criticado um time de futebol, os comentários foram: “vou te atropelar”, “burro”, “ignorante”, “vendido”. Listei os mais leves. Isso numa simples opinião sobre futebol. Imaginem comentários sobre política.

 A história é uma boa ferramenta para compreendermos de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. Guardadas as devidas proporções, o momento no qual passamos é muito semelhante a fase do Terror da Revolução Francesa. Iniciada no dia 14 de julho de 1789 (Tomada da Bastilha), a Revolução Francesa tem muito a nos ensinar sobre a intolerância. Não vamos dar aqui uma aula sobre a revolução. Apenas pinçar alguns aspectos que aproximam aquela revolução do momento no qual nos situamos.

 Na fase republicana da revolução, o rei Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta foram decapitados da guilhotina (1793). A Primeira República, formada a partir da Convenção Nacional, foi inicialmente dominada pelos Girondinos, partido político da época. Aqui surgiu uma expressão que usamos até hoje na política: esquerda e direita. Os jacobinos sentavam-se a esquerda do presidente da convenção e os girondinos à direita. Os jacobinos identificavam-se com as causas populares e os girondinos com as causas da elite. Em 1793, a França foi invadida pelos exércitos da Áustria e da Prússia, estes países, com medo que a revolução se alastrasse pela Europa, desejavam restaurar a Monarquia Absolutista na França. Diante deste quadro, os jacobinos, em 2 de julho de 1793, derrubaram os girondinos do poder, e em seu lugar nascia a República Jacobina.

 “Não é por um povo que combatemos, mas pelo universo! Não pelos que vivem hoje, mas por todos aqueles que existirão”, esta frase é do líder jacobino Robespierre. As ações dele foram centralizadas principalmente no período do Terror, no qual ocorreu a perseguição política e ideológica a todos os opositores do novo governo. A frase contrasta um pouco com suas práticas, gerando a contradição que norteará a discussão nesse momento: que liberdade seria essa proposta por Robespierre, o principal líder do período de Terror francês? A liberdade dos seus ou a de todos, sem exceção? O fato é que em menos de um ano mais de 50 mil pessoas, consideradas inimigas da pátria, forma guilhotinadas. Bastava apontar um dedo. Isso lembra um pouco a nossa época? Você, caro leitor, não anda apontando dedo por aí? Quantas cabeças imaginárias você já cortou hoje?

 Voltemos para os nossos dias. É impossível não fazermos um paralelo com a fase do Terror. As pessoas que se chamam de “cidadãos de bem” saem ensandecidas ofendendo as pessoas nas redes sociais. Usam palavrões, xingamentos e ameaças. Estão tão doentes (frustrações, solidão, drogas) que esquecem-se que no dia seguinte o ofendido vai estar na fila do banco para pagar uma conta. Que o ofendido pode ser amigo do chefe, pode ser um cliente importante. As tais “pessoas de bem” esquecem-se de que a rede social de alguém é como se fosse a casa dela. Não é território de ninguém. Existem regras de boa convivência.

 Robespierre, o incitador do Terror, não foi esfaqueado. Ele acabou caindo na própria armadilha que criou. De tanto apontar o dedo para as pessoas, um dia teve um apontado para ele. Acabou guilhotinado. Ele falava em liberdade, mas não aceitava ideias contrárias. E nós, hoje, aceitamos o contraditório do outro? Quantas pessoas esfaqueamos com o teclado do computador? Que fique a reflexão...

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